Nova Friburgo: capital nacional da moda íntima e um dos maiores polos do Brasil

Quando se fala em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro, é comum pensar nas montanhas, no clima e no turismo. Mas existe uma atividade que há décadas ajuda a movimentar a economia da cidade e tornou seu nome conhecido em todo o Brasil: a moda íntima.

Lingerie, moda praia, fitness e outros segmentos do vestuário fazem parte de uma cadeia produtiva que reúne confecções, fornecedores de matéria-prima, profissionais especializados, representantes, lojistas e milhares de trabalhadores. A relevância é tamanha que, em 2024, aquilo que o mercado já reconhecia recebeu também um título oficial. Por meio da Lei Federal nº 14.883, Nova Friburgo tornou-se oficialmente a Capital Nacional da Moda Íntima.

O título representa muito mais do que uma homenagem à cidade. Ele reconhece uma vocação econômica construída ao longo de décadas e ajuda a dimensionar a importância de um polo que produz para diferentes regiões do país. Ao mesmo tempo, tamanha concentração de empresas em um mesmo segmento também cria um desafio cada vez mais importante: além da disputa por clientes e espaço no mercado, existe uma grande disputa por bons nomes de marcas.

Nova Friburgo produz cerca de 35% da lingerie nacional

A dimensão do polo aparece nos números. Segundo dados divulgados pela Firjan, Nova Friburgo responde por aproximadamente 35% da produção nacional de lingerie, com cerca de 336 milhões de peças produzidas por ano. O ecossistema relacionado ao setor também gera aproximadamente 28 mil oportunidades de trabalho e renda, entre empregos diretos e indiretos.

São números que ajudam a entender por que a moda íntima ultrapassou a condição de atividade econômica relevante para se tornar parte da própria identidade de Nova Friburgo. Existe uma cadeia que começa muito antes de uma peça chegar ao consumidor e envolve criação, modelagem, corte, costura, matéria-prima, tecnologia, embalagem, logística, representação comercial, atacado e varejo.

Além da lingerie, o conhecimento desenvolvido ao longo dos anos também fortaleceu a presença da região nos segmentos de moda praia e fitness. O resultado é um ecossistema especializado, capaz de reunir diferentes etapas da produção e empresas com os mais variados posicionamentos.

A Fevest coloca Nova Friburgo na vitrine do setor

Um dos maiores símbolos dessa força é a Fevest, criada em 1992 pelo Sindvest, Sindicato das Indústrias do Vestuário de Nova Friburgo e Região. Ao longo das décadas, o evento tornou-se uma importante vitrine para fabricantes, fornecedores, compradores e profissionais ligados à indústria da moda.

A Fevest também demonstra como o polo ultrapassou as fronteiras locais. Empresas e compradores de diferentes estados e países encontram em Nova Friburgo produtos, fornecedores, tendências e oportunidades de negócios, fortalecendo a posição da cidade como referência para o setor.

Esse movimento também modifica a realidade das próprias confecções. Uma empresa que começa atendendo alguns lojistas da região pode passar a vender pela internet, entrar em marketplaces, conquistar representantes comerciais e alcançar consumidores em diferentes estados. Quando isso acontece, a marca deixa de ser apenas um nome conhecido localmente e passa a disputar atenção em um mercado muito maior.

Por trás de milhões de peças existem centenas de marcas

Quando olhamos para a produção do polo como um todo, enxergamos milhões de peças saindo de Nova Friburgo todos os anos. Para o consumidor, entretanto, essa produção chega ao mercado por meio de marcas.

Cada etiqueta representa uma empresa tentando conquistar seu espaço. Algumas trabalham com lingerie básica, outras com produtos premium, moda sensual, linha noite, tamanhos maiores, moda praia ou fitness. Existem fabricantes especializados em produção para terceiros e empresas que concentram seus esforços no desenvolvimento de marcas próprias.

Essa diversidade fortalece o polo, mas também aumenta a concorrência. Não basta produzir uma peça de qualidade. Para quem deseja construir uma marca própria, é necessário fazer com que lojistas e consumidores consigam reconhecer, lembrar e diferenciar aquele produto em meio a tantas outras opções.

É nesse ponto que o nome escolhido pela empresa começa a adquirir importância estratégica. Quanto mais aquele nome aparece em etiquetas, embalagens, catálogos, redes sociais e pontos de venda, maior pode se tornar o investimento acumulado ao seu redor.

Existe também uma grande disputa por nomes

Um polo com grande concentração de empresas do mesmo segmento cria naturalmente outro tipo de concorrência: encontrar nomes distintivos e disponíveis pode se tornar cada vez mais difícil.

No universo da lingerie, moda praia e fitness, muitas empresas procuram inspiração nos mesmos conceitos. Feminilidade, sensualidade, beleza, conforto, corpo, liberdade, autoestima, elegância e delicadeza aparecem com frequência na construção das marcas. Também são comuns nomes femininos, palavras estrangeiras e combinações com termos relacionados diretamente ao setor.

Isso faz com que diferentes empresários possam chegar a nomes iguais ou semelhantes sem que necessariamente exista qualquer intenção de copiar outra empresa. Dois empreendedores podem ter exatamente a mesma ideia em momentos diferentes ou criar variações muito próximas a partir das mesmas referências.

Do ponto de vista do registro de marca, entretanto, a ausência de intenção de copiar não significa que um eventual conflito deixe de existir. O INPI analisa os sinais e os produtos ou serviços envolvidos, e marcas anteriores semelhantes podem representar obstáculos quando houver possibilidade de confusão ou associação.

Por isso, uma das perguntas mais importantes antes de lançar uma nova marca de lingerie não deveria ser apenas “esse nome é bonito?”, mas também “esse nome está disponível para ser construído como marca?”

Colocar “Lingerie” depois do nome pode não resolver

Existe ainda uma característica importante nesse mercado: muitas empresas utilizam palavras diretamente relacionadas à atividade como complemento do nome principal. Expressões como “Lingerie”, “Moda Íntima”, “Intimates”, “Beachwear”, “Fitness”, “Fit” ou “Fashion” ajudam a comunicar o segmento, mas não necessariamente tornam duas marcas semelhantes suficientemente diferentes.

Se o elemento principal de duas marcas for muito próximo, simplesmente acrescentar uma expressão descritiva da atividade pode não ser suficiente para afastar um possível conflito. A análise de registrabilidade não se resume a verificar se duas marcas são escritas de maneira absolutamente idêntica.

O próprio INPI recomenda que a busca anterior ao pedido considere marcas parecidas e orienta que a pesquisa não seja limitada apenas à expressão completa. Aspectos gráficos, fonéticos e a força dos elementos que compõem o sinal podem ser relevantes durante a análise.

Essa realidade torna a escolha do nome ainda mais importante em segmentos com muitas empresas concorrendo dentro do mesmo universo conceitual.

Pesquisar no Instagram não significa pesquisar uma marca

Outro comportamento comum é escolher o nome da confecção verificando se o usuário está disponível nas redes sociais. Se o @ está livre, o domínio pode ser registrado e nenhuma empresa conhecida aparece nas primeiras pesquisas do Google, existe uma tendência natural de concluir que o nome está disponível.

Mas disponibilidade digital e disponibilidade marcária são coisas diferentes.

Uma empresa pode possuir uma marca registrada e não utilizar determinado nome de usuário no Instagram. Pode ter pouca presença nas redes sociais ou atuar em outra região do país. Da mesma maneira, encontrar uma empresa utilizando determinado nome na internet não significa necessariamente que ela possua o registro correspondente perante o Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

Por isso, Google, Instagram e pesquisas de domínio são úteis para conhecer o mercado, mas não substituem uma pesquisa na base de marcas do INPI. O próprio Instituto recomenda a busca prévia para verificar se existem marcas anteriores iguais ou parecidas antes da apresentação de um novo pedido.

Imagine descobrir o problema depois de produzir milhares de etiquetas

Para uma confecção, descobrir um conflito de marca tarde demais pode ser especialmente complicado porque o nome está fisicamente ligado ao produto. Uma coleção pode envolver milhares de etiquetas, embalagens, tags, catálogos, expositores e materiais comerciais produzidos com aquela identidade.

Além disso, a empresa pode já ter investido em fotografias, influenciadores, campanhas, stands em feiras, representantes comerciais, site, redes sociais e marketplaces. Lojistas podem ter aprendido a procurar aquele nome e consumidores podem ter começado a reconhecer a etiqueta.

Dependendo das circunstâncias e dos direitos envolvidos, um conflito pode gerar oposição perante o INPI, notificações, disputas administrativas ou discussões judiciais. Nem toda semelhança entre marcas resultará automaticamente em impedimento ou obrigará uma empresa a mudar de nome, mas descobrir um risco antes de realizar todo esse investimento é muito diferente de encontrá-lo quando a marca já está consolidada.

É justamente por isso que a pesquisa de viabilidade deve fazer parte do processo de criação da marca, preferencialmente antes da produção de etiquetas, embalagens e grandes investimentos em divulgação.

O registro protege aquilo que a confecção trabalha para tornar conhecido

A marca registrada possui uma função importante dentro dessa estratégia. De acordo com a Lei da Propriedade Industrial, como regra geral, a propriedade da marca é adquirida pelo registro validamente expedido pelo INPI, assegurando ao titular seu uso exclusivo em todo o território nacional, observadas as disposições previstas na legislação.

Isso é particularmente relevante para empresas que pretendem sair de uma atuação exclusivamente local. Uma confecção pode começar em Nova Friburgo e, alguns anos depois, possuir clientes em diferentes estados. A internet acelerou esse processo e permitiu que pequenas marcas chegassem a consumidores que antes dificilmente seriam alcançados.

Quanto maior o território comercial alcançado pela empresa, maior também pode ser a chance de encontrar outras marcas disputando o mesmo mercado. Por isso, construir reconhecimento e pensar em proteção não deveriam ser estratégias separadas.

A pesquisa de viabilidade não garante que um pedido será concedido pelo INPI, porque a decisão final depende do exame realizado pelo Instituto. Ela permite, entretanto, identificar pedidos e registros anteriores potencialmente relevantes e avaliar riscos antes que a empresa coloque ainda mais dinheiro naquele nome.

Produzir para outras marcas ou construir a sua própria?

Nova Friburgo também possui uma forte cultura de produção para terceiros. Para muitas empresas, esse modelo é parte importante da estratégia comercial. Entretanto, existe uma diferença entre possuir capacidade produtiva e construir uma marca própria reconhecida pelo mercado.

Quando uma confecção produz para terceiros, o consumidor pode conhecer principalmente a marca que aparece na etiqueta. Quando a empresa desenvolve sua própria identidade, parte do reconhecimento conquistado começa a se acumular em torno do seu próprio nome.

Não existe um único modelo correto, e empresas podem ser bem-sucedidas em ambos. Mas para aquelas que desejam desenvolver marcas próprias, o nome escolhido merece tanta atenção quanto outros elementos do produto. Afinal, uma coleção pode durar alguns meses, enquanto uma boa marca pode acompanhar a empresa durante décadas.

A Capital Nacional da Moda Íntima também precisa produzir marcas fortes

Nova Friburgo conquistou uma posição extraordinária dentro da indústria brasileira da moda. Existe conhecimento produtivo, mão de obra especializada, tradição empresarial e uma cadeia construída ao longo de décadas. Desde 2024, existe também o reconhecimento oficial, por lei federal, de Capital Nacional da Moda Íntima.

Toda essa força produtiva cria oportunidades, mas também aumenta a competição. Em um ambiente com tantas empresas trabalhando com lingerie, moda praia e fitness, a disputa acontece pelo consumidor, pelo lojista, pelo representante, pelo espaço nas vitrines e também pelos bons nomes disponíveis para construir novas marcas.

Por isso, escolher um nome apenas porque parece bonito ou porque o @ está disponível pode ser pouco para uma empresa que pretende crescer. É importante pesquisar, analisar possíveis conflitos e pensar na proteção antes que milhares de peças comecem a carregar aquela etiqueta.

A Registratta está localizada em Nova Friburgo e acompanha de perto a realidade de um dos maiores polos de moda do país. A empresa realiza pesquisas de viabilidade e acompanha processos de registro de marcas perante o INPI, auxiliando confecções e outros negócios a avaliar os nomes sobre os quais pretendem construir sua identidade.

Nova Friburgo já conquistou o reconhecimento de Capital Nacional da Moda Íntima. Para as empresas que fazem parte dessa história, existe agora um desafio permanente: continuar produzindo para o Brasil inteiro e, ao mesmo tempo, construir marcas capazes de sair das fábricas friburguenses, ganhar o mercado e serem lembradas pelo consumidor.

Referências

Brasil. Lei nº 14.883, de 11 de junho de 2024. Confere o título de Capital Nacional da Moda Íntima ao Município de Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro.

Firjan. Dados sobre o Polo de Moda de Nova Friburgo, produção nacional de lingerie, volume de peças e geração de trabalho e renda.

Firjan. Informações sobre a Fevest e a cadeia produtiva de lingerie, moda praia e fitness de Nova Friburgo.

Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Guia Básico de Marcas e orientações para realização de busca prévia.

Brasil. Lei nº 9.279, de 14 de maio de 1996. Lei da Propriedade Industrial, especialmente o artigo 129.

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